Grupo de Trabalho de Urbanismo Expõe: Orla do Guaíba – Trecho 1, a relação da cidade com a água

Grupo de Trabalho de Urbanismo Expõe: Orla do Guaíba – Trecho 1, a relação da cidade com a água

Localização: Porto Alegre, Rio Grande do Sul 
Extensão:  1,3 quilômetros
Conclusão: 2018
Projeto: Jaime Lerner Arquitetos Associados (JLAA)
Equipe: Jaime Lerner, Fernando Antônio Canalli, Paulo Kawahara, Valéria Bechara, Gianna Rossanna De Rossi, Ariadne Daher, Felipe Guerra, Fernando Popp, Taco Roorda e Carlos Oliveira Perna
Tipologia: Parque urbano

O Guaíba sempre foi fundamental para a paisagem e a identidade de Porto Alegre. Apesar disso, sua proximidade nem sempre se traduziu em uma relação direta entre a cidade e suas águas. Por anos, a orla sofreu com a degradação, a subutilização e os problemas de segurança, restringindo o acesso e uso pela população. Nesse contexto, a requalificação da orla apresenta-se como uma oportunidade de recuperar uma área de grande valor paisagístico, aproximando a cidade de suas águas e proporcionando possibilidades de convivência, lazer e integração ao cotidiano da população.

Localizado entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias, o trecho 1 do Parque Urbano da Orla do Guaíba, oficialmente denominado Orla Moacyr Scliar, desenvolvido pelo escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados (JLAA), foi inaugurado em 2018. O projeto faz parte de um processo mais amplo de requalificação da margem, visando integrar arquitetura, paisagismo, atividades de lazer e mobilidade.

Créditos da imagem: Arthur Cordeiro

Uma das principais condicionantes para o desenvolvimento do projeto, além da integração com a malha urbana existente, foi a topografia, associada ao sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre na época. 

O desnível entre o Guaíba e o passeio junto à Avenida Edvaldo Pereira Paiva orientou a distribuição do programa distribuído entre edificações, áreas de atividades ao ar livre, contemplação e permanência. Serviços e estabelecimentos comerciais foram posicionados em cotas de níveis inferiores ao passeio junto à avenida, preservando a vista para o Guaíba, enquanto suas coberturas foram projetadas como superfícies caminháveis. Rampas, arquibancadas e áreas de estar criam a transição entre as diferentes cotas de níveis, evidenciando como as condicionantes físicas do terreno podem e devem ser incorporadas ao desenho urbano, ampliando as possibilidades de uso dos espaços. Já os caminhos propostos, acompanham a configuração da margem, explorando linhas curvas e diferentes formas de aproximação com a água.

Créditos da imagem: Arthur Cordeiro

O paisagismo, elaborado a partir das características ambientais da margem, contemplando a preservação da vegetação remanescente e a introdução de espécies adequadas às condições locais. A seleção vegetal considerou os diferentes setores, incluindo áreas sujeitas a inundações e áreas mais elevadas. Dessa forma, a vegetação possibilita a recuperação paisagística e a valorização das características naturais do terreno.

O programa reúne passeios para pedestres, ciclovia, mirantes, arquibancadas, áreas de estar e contemplação, de contemplação, estabelecimentos gastronômicos, pequenos espaços comerciais e equipamentos de apoio complementam as atividades, favorecendo a permanência e a diversidade de usos. 

Após a inauguração, a Orla Moacyr Scliar passou a receber um fluxo expressivo de visitantes, consolidando-se como um dos principais espaços públicos de lazer da região central de Porto Alegre. Atividades como caminhadas, práticas esportivas, encontros e a contemplação da paisagem passaram a integrar a dinâmica cotidiana do parque. Essa constatação se aproxima das reflexões de Jan Gehl sobre como a qualidade dos espaços urbanos influencia a maneira como as pessoas vivem e se relacionam com a cidade, incentivando não apenas as atividades do dia a dia, mas também o desejo de permanecer, encontrar pessoas e compartilhar esses espaços.

Créditos da imagem: Arthur Cordeiro

Na Orla do Guaíba, a diversidade de percursos e áreas de permanência demonstra como o desenho urbano pode favorecer essas experiências, transformando uma área antes subutilizada em um espaço de convivência cotidiana. A proximidade com o Centro Histórico, a Usina do Gasômetro e o Cais Mauá amplia a relevância urbana da intervenção, intensificando relações entre patrimônio, turismo, atividades econômicas e espaços públicos. 

Ao articular essas soluções à diversidade de usos e à presença cotidiana da população, a Orla do Guaíba demonstra que a qualidade de uma intervenção urbana não está apenas nos espaços que se constroem, mas nas relações que eles permitem estabelecer entre a cidade, a paisagem e as pessoas.

Jaqueline Marques – Gerente de Projeto e Atendimento na Austin Urbanismo