Grupo de Trabalho de Urbanismo Expõe: Parque da Cidade: o térreo como espaço compartilhado

Parque da Cidade: o térreo como espaço compartilhado

Como a fruição pública, a água e a reintegração da APP à paisagem urbana transformaram um antigo lote industrial à margem do Rio Pinheiros em espaço de uso público integrado à cidade

Localização: Chácara Santo Antônio, zona sul de São Paulo, SP
Área do terreno: 81.777 m²
Área construída: 595.930 m²
Áreas abertas ao público: cerca de 62.000 m², dos quais 22.000 m² referente ao parque linear (APP)
Início do projeto: 2010
Conclusão da obra: 2025
Masterplan e Arquitetura: Aflalo/Gasperini Arquitetos
Torres residenciais: UNStudio (Holanda)
Arquitetura da paisagem: Pamela Burton (EUA) e Sergio Santana Planejamento e Desenho da Paisagem
Programa: 5 torres corporativas, 1 torre de salas comerciais, shopping, hotel, 2 edifícios residenciais e 3 restaurantes
Certificação: LEED for Neighborhood Development (masterplan, 2015) e LEED ND Silver (empreendimento construído)

Até pouco tempo atrás, a paisagem da várzea do Rio Pinheiros era definida pela indústria. Os lotes eram grandes, murados e voltados para dentro, e a cidade passava ao lado. Na Chácara Santo Antônio, zona sul de São Paulo, a fábrica de bicicletas Monark funcionou até 2008 em um desses terrenos, separada por um muro da única vegetação existente no local: um bosque na faixa de APP voltada para a Marginal. Hoje, no mesmo lugar, cerca de 15 mil pessoas circulam diariamente pelo Complexo Parque da Cidade, e o muro deixou de existir.

A mudança acompanha a da própria região. O regime urbanístico da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, somado ao prolongamento da Avenida Chucri Zaidan até a Avenida João Dias e a ponte Burle Marx, fez do eixo Berrini–Chucri Zaidan uma nova frente de desenvolvimento da cidade. Foi a compra de CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção) que permitiu ao complexo alcançar quase 596 mil m² de área construída sobre um terreno de cerca de 82 mil m². Iniciado em 2010, o projeto atravessou paralisações e trocas de controle até sua conclusão, em 2025, já sob gestão da Brookfield Properties.

O que diferencia o Complexo Parque da Cidade de tantos outros empreendimentos está no nível do pedestre. O partido arquitetônico-paisagístico do masterplan parte de um grande vazio traçado na diagonal do lote, que atravessa o conjunto, passa pelos lobbies dos edifícios e termina nas âncoras do complexo, o shopping e o hotel. Ao longo desse eixo, uma marquise orientada no sentido leste–oeste sombreia o passeio e funciona ao mesmo tempo como circulação e lugar de permanência. O que a legislação urbanística paulistana passou a chamar de fruição pública, a abertura do lote privado ao pedestre, aqui é partido de projeto: são cerca de 62 mil m² abertos ao público, dos quais 22 mil m² de parque linear (APP) junto à Marginal Pinheiros, sem gradis e compartilhados com a cidade. Restaurantes, lago, áreas verdes e playground servem ao público em geral e são igualmente desfrutados pelos moradores.

Integração visual entre o residencial e a área de fruição
Foto: Otávio Dornelas, 2024.

A combinação de usos sustenta essa vitalidade. Escritórios, salas comerciais, moradia, hotel, comércio e restaurantes garantem movimento em horários diferentes ao longo do dia e da semana, e, na cobertura do shopping, uma horta de 3 mil m² operada pelo Sítio Sampa abastece a feira semanal de orgânicos do complexo.

Mobilidade e caminhabilidade seguem a mesma lógica. Ciclovias contornam o empreendimento, entram no complexo e se conectam à ciclovia do Rio Pinheiros, e a Estação Morumbi, da Linha 9-Esmeralda da CPTM, e linhas de ônibus estão no entorno imediato. Calçadas adequadas, vegetadas e sombreadas substituem a barreira vertical entre público e privado, enquanto uma via interna na tipologia traffic calming, ligada à Marginal, amortece o impacto do tráfego. O contraponto está na rua de acesso principal ao condomínio residencial. Com seção e calçadas mais estreitas, ela é ladeada pelo fechamento do residencial, ainda que em vidro, e pelo muro do lote vizinho, duas bordas fechadas que estreitam a percepção do espaço e tornam o percurso menos convidativo. Em parte, a diferença reflete a diretriz urbanística da via, mas evidencia, por contraste, como a experiência do pedestre depende de calçadas bem dimensionadas e de limites que dialoguem com a cidade.

Ciclovia integrada ao parque linear.
Foto: Rodrigo Soliman, 2018.

Em uma área alagável, próxima ao rio, a água foi tratada ao mesmo tempo como condicionante e como inspiração. Lago, espelho d’água, biovaletas e jardins de chuva captam, retêm e participam do sistema de drenagem e reuso de águas pluviais, cada um com uma função paisagística distinta. Calçadas e ciclovia receberam pisos drenantes, e a área de fruição, piso elevado modular de concreto. Na borda da Marginal, a APP foi reintegrada à paisagem. Enriquecida com mais de 110 espécies nativas da Mata Atlântica, passou a funcionar como zona de transição e amortecimento entre a via expressa e o interior do conjunto. Quem caminha pela fruição mal percebe que o trânsito da Marginal está a poucos metros.

O conceito paisagístico inicial da norte-americana Pamela Burton passou por uma “tropicalização” conduzida pelo escritório de Sergio Santana, que adaptou soluções técnicas e acabamentos às condições locais. Todas as árvores propostas são nativas, e as demais espécies são predominantemente nativas ou adaptadas à região, de baixa manutenção e com irrigação automatizada. No detalhamento executivo, o maior desafio foi coordenar os diversos stakeholders de um masterplan dessa escala e aprovar as soluções baseadas na natureza dentro do orçamento. A cota de alagamento também exigiu ajustes em obra: uma orientação recebida tardiamente levou à elevação da guarita do acesso residencial em cerca de 1 m em relação à rua, com a laje do térreo já concretada. A compatibilização garantiu acessibilidade e drenagem com o mínimo de impacto sobre o conceito do projeto.

Eixo da fruição pública.
Foto: Otavio Dornelas, 2024.

Desde o início, o plano diretor mirou a certificação LEED for Neighborhood Development, que avalia conectividade, prioridade aos modos ativos, integração com o entorno e eficiência da infraestrutura. O masterplan recebeu o selo em 2015, o primeiro na América Latina, e o empreendimento construído conquistou depois o nível Silver, também inédito. “A ampla diversidade de usos e ter uma quadra aberta para a fruição pública do pedestre colaboraram para a soma dos pontos necessários para a certificação”, afirmou Myriam Tschiptschin, do CTE, consultoria responsável pela certificação, em publicação da empresa. Em linha com as diretrizes do LEED ND, o programa Empreendedorismo que Transforma, da Brookfield Properties, abre espaço para microempreendedores comercializarem seus produtos em quiosques sustentáveis na área de fruição.

Lago e deque, com a marquise da fruição ao fundo.
Foto: Otavio Dornelas, 2024.

A zeladoria alia tecnologia a serviços compatíveis com a escala do empreendimento. Mantido em modelo condominial, com custos e responsabilidades divididos entre as partes, o complexo custeia a conservação das áreas abertas ao público, o paisagismo e a segurança, apoiada por câmeras. A coleta seletiva subterrânea, feita por sistema pneumático e automatizado, simplifica a logística, reduz a circulação de caminhões e libera espaço para as pessoas. Com atividades em horários distintos, o espaço se mantém ocupado e cuidado ao longo de todo o dia.

O LEED ND atesta, afinal, o que o projeto entrega à vizinhança: espaços de convívio, estímulo à mobilidade ativa e à saúde e uma infraestrutura mais eficiente, com atenção ao bem-estar de quem usa o lugar, o que faz do complexo uma referência para a vida urbana em São Paulo. Jane Jacobs lembrava, em Morte e vida de grandes cidades, que “a intensidade de uso do parque depende em parte do próprio traçado do parque”, mas também “da presença de pessoas para usá-lo e do momento em que o usam”. No Parque da Cidade, a combinação de usos traz as pessoas, e a implantação oferece a elas onde caminhar e permanecer. Como resumiu Sergio Santana à revista Projeto: “A sorte do empreendimento é sua dimensão horizontal, que acomoda transições de espaços e escalas. Uma implantação bem feita, com facilidade de caminhamento e experiência paisagística interessante, é o começo de tudo.”

Rodrigo Soliman – Diretor Executivo | Bioma-Metrópole / Arquitetura da Paisagem e Desenho Urbano

O autor integrou a equipe de paisagismo do escritório Sergio Santana entre 2010 e 2021, participando da coordenação do projeto e acompanhamento da obra.