Grupo de Trabalho de Urbanismo Expõe: Parque Rachel de Queiroz, uma imersão sobre como infraestruturas tradicionalmente invisíveis se tornam paisagem.

Parque Rachel de Queiroz 

Localização: Fortaleza, Ceará 
Área total: 203 hectares
Extensão: aproximadamente 10 quilômetros
Conclusão da primeira etapa: 2022
Projeto: Architectus S/S
Equipe: Elton Timbó, Jaqueline Martins, Gerson Amaral, Mariana Furlani, Alexandre Landim e Ricardo Sabóia
Tipologia: parque linear, espaço público e infraestrutura verde
Premiações: Obra do Ano 2023 do ArchDaily Brasil, menção honrosa da ONU-Habitat e finalista da Bienal Panamericana de Arquitectura de Quito.

Durante muito tempo, as cidades aprenderam a esconder seus cursos d’água. Riachos foram canalizados, fundos de vale tratados como áreas residuais e a drenagem afastada da vida cotidiana. Em Fortaleza, o Parque Rachel de Queiroz percorre o caminho contrário: torna a água novamente visível e transforma sua presença em encontro, paisagem e regeneração urbana. O parque leva o nome da escritora cearense Rachel de Queiroz, nascida em Fortaleza e reconhecida como uma das principais vozes da literatura brasileira, cuja obra construiu uma leitura profundamente vinculada ao território, às paisagens, às relações humanas e às condições sociais do Nordeste. Ao homenageá-la, o projeto reafirma também sua dimensão cultural e identitária, reconhecendo os vínculos entre aquela paisagem, a memória da cidade e a formação do Ceará.

Implantado ao longo do Riacho Cachoeirinha, na Zona Oeste da capital cearense, o parque reúne 203 hectares e aproximadamente 10 quilômetros de extensão, configurando-se como a segunda maior área de parque público da cidade. A intenção da equipe ultrapassava a recuperação pontual de áreas degradadas: era necessário unificar todo o percurso, evitar espaços residuais e criar, por meio de caminhos contínuos, atrativos e acessos distribuídos, um eixo de integração entre os 14 bairros impactados. Dividido em 19 trechos, o parque permite implantação gradual e adaptada às condições de cada setor, com seis trechos já executados e diferentes soluções baseadas na natureza previstas para os demais.

Terreno antes do Parque Rachel de Queiroz, Fortaleza. Projeto Architectus
Fotografia Joana França.

A leitura dos riachos como elementos de conexão foi determinante para o projeto. Apesar da fragmentação urbana, suas margens ainda preservavam corredores vegetados possíveis de intervenção, e foi a partir dessas conexões verdes que a equipe decidiu trabalhar mobilidade e drenagem conjuntamente, integrando paisagem, lazer e recuperação ambiental em uma única estratégia. Caminhos para pedestres e ciclistas percorrem os trechos implantados, enquanto passarelas metálicas sobre o riacho vencem barreiras físicas e aproximam bairros antes desconectados. A água deixa, assim, de ser tratada como obstáculo ou infraestrutura invisível e passa a organizar percursos, permanências e a experiência cotidiana.

No bairro Presidente Kennedy, onde foi implantada a primeira etapa, um terreno permanentemente alagado acumulava lixo, entulho e vegetação degradada. A impermeabilização do solo agravava os alagamentos, enquanto o Riacho Cachoeirinha recebia resíduos e lançamentos clandestinos de esgoto, afastando a população de suas margens. Diante desse cenário, a Architectus S/S inverteu a lógica tradicional da drenagem urbana: em vez de canalizar o riacho ou implantar barramentos em concreto, adotou a infraestrutura verde como princípio organizador do espaço público. Foi árduo convencer engenheiros, construtores e órgãos fiscalizadores, sobretudo porque obras recentes a montante haviam seguido a solução convencional, mas o apoio de gestores públicos permitiu à equipe pôr em prática suas intenções.

Vista Aérea Parque Rachel de Queiroz, Fortaleza/CE | Projeto Architectus.
Fotografia Joana França.

O principal diferencial está no sistema de nove wetlands, formado por lagoas artificiais interligadas que, por meio da decantação, da fitorremediação e da circulação por gravidade, amortecem as cheias, reduzem a carga poluidora e recuperam funções ambientais do fundo de vale. Por trás da aparente simplicidade da paisagem existe um complexo desenho técnico: o jogo de níveis controla o fluxo e o tempo de permanência da água em cada lagoa, enquanto saltos hidráulicos favorecem sua oxigenação.

A escolha, a quantidade e a manutenção das macrófitas foram incorporadas aos cálculos de volume e vazão. As margens vegetadas e a presença dessas espécies demoraram a ser compreendidas como componentes efetivos da infraestrutura, exigindo intenso diálogo entre paisagismo e engenharia hidráulica. O projeto também adotou espécies arbóreas nativas e frutíferas, além de vegetação resistente a alagamentos temporários, tendo entre suas referências o trabalho do escritório chinês Turenscape, especialmente o Tianjin Qiaoyuan Park. As experiências internacionais relacionadas às cidades-esponja, aos parques alagáveis e às infraestruturas verdes foram fundamentais para ampliar o repertório, mas uma das maiores qualidades do Parque Rachel de Queiroz está em não reproduzir automaticamente soluções concebidas para outras realidades. Cada decisão responde a uma necessidade concreta do território, inclusive o desenho aberto, com acessos francos e percursos contínuos.

Outro aspecto central é a valorização dos grandes espaços livres. Em vez de saturar a área com edificações, mobiliários e equipamentos, a equipe compreendeu que um parque público deveria combinar estruturas de esporte e lazer com vazios qualificados, capazes de receber apropriações espontâneas. A decisão também responde à função hidráulica do espaço, pois parte dessas áreas precisa permanecer disponível para a retenção temporária das cheias.

Logo após a inauguração, a população passou a ocupar intensamente o parque, que estava além das expectativas de todos. Festas de aniversário nos jardins, aulas de dança no anfiteatro, rodas de violão ao pôr do sol, caminhadas, atividades esportivas, intervenções artísticas e grupos voluntários de limpeza e educação ambiental tornaram-se parte da paisagem. O sucesso de público também revelou desafios não previstos, como o crescimento do comércio ambulante, com food trucks e trailers, que passou a provocar conflitos de circulação nos passeios externos.

Para Elton Timbó, o equilíbrio entre as dimensões ambiental, econômica e social permitiu que o projeto alcançasse uma condição de “sustentabilidade plena”, percebida no cuidado cotidiano e na transformação dos usuários em agentes indiretos de preservação.

O Parque Rachel de Queiroz demonstra que o Brasil não precisa apenas observar exemplos estrangeiros, mas também é capaz de produzir soluções próprias e tecnicamente consistentes. Mais do que um modelo a ser replicado, oferece uma metodologia brasileira de leitura e intervenção no território. Ao recuperar processos ecológicos sem abrir mão da intensidade de uso, tornou-se um marco para a Zona Oeste de Fortaleza e reafirma que infraestrutura também pode produzir paisagem, pertencimento e vida urbana.

Como sintetiza Elton Timbó: “O Parque Rachel de Queiroz é a extensão do lar de cada um de seus usuários.” 

Camila Poio Bressan – Sócia-Fundadora e Diretora de Criação da Urban.P