Preâmbulo
Este texto aborda a criação de um dos primeiros parques de bolso realizados no Brasil durante a década de 1990 – o Parque da Residência em Belém/PA – objeto de intensa divulgação na época e que permanece, até os dias atuais, como uma referência de lazer, socialização e celebração na cidade.
A relevância deste projeto dentro do contexto nacional reside no fato que, até hoje, ele é um dos exemplos clássicos de parque de bolso brasileiro, possuidor de todas as características definidoras desta classificação de área verde urbana.
Através de visitas técnicas, consultas bibliográficas e conversas com os autores do trabalho, este texto apresenta uma visão urbanística e paisagística sobre um logradouro público desenhado na escala humana e rico em charmes arquitetônicos.


Parque da Residência, a realização no Brasil de um parque de bolso no otimismo dos anos 1990.
Acredito que o Brasil detém uma série de espaços públicos qualificados espalhados por todo o território nacional e creio que isto deve ser valorizado por todos. Há excelentes exemplos brasileiros, sim. Deste modo, nasceu este artigo, o qual divulga o apuro conceitual de um traçado paisagístico singular, criado para ressignificar o entorno de uma edificação histórica localizada na capital do Pará.
Assim como diversas metrópoles brasileiras, Belém possui intensos desafios urbanos e dois deles são a manutenção e ativação do seu patrimônio arquitetônico para as gerações futuras. De fato, eu irei mergulhar neste artigo em um exemplo único de projeto – o Parque da Residência – focando a redação nas astúcias projetuais e de gestão, as quais somadas o mantém como espaço público qualificado.
Desta maneira, iniciarei o texto explicando o conceito de parque de bolso e avançarei com um contexto do país, da cidade e do projeto, e, em seguida, desenvolverei o tema através da descrição do espaço e finalizarei este artigo com uma reflexão sobre a continuidade da sua atratividade e o seu futuro, depois de quase trinta anos da sua inauguração.
Em primeiro lugar é válido explicar que o conceito de parque de bolso “pocket park” – como é conhecido no mundo contemporâneo – nasceu no fim dos anos 1960 através da obra emblemática do Paley Park, criado em Nova Iorque em 1967 pelo desenho dos arquitetos Robert Zion e Harold Breen Associates. Reconhecido mundialmente pela fotografia icônica da sua cascata central emoldurada por um dossel de árvores e povoada por cadeiras de Harry Bertoia, este parque norte-americano é o embrião de uma idéia de região verde de pequena escala, localizada em terrenos subutilizados ou vagos em zonas densas de grandes metrópoles, em outras palavras – parques de bolso.
De fácil inserção no tecido urbano e tendo como embrião conceitual o ideal de cidade-jardim contemporâneo, estes ambientes naturalizados se multiplicaram em inúmeras cidades brasileiras e, entre os pioneiros, está a versão paraense sobre o assunto.
Idealizado nos anos 1990 pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará (Secult/PA) dentro de um contexto mais amplo de requalificação urbana de Belém, por meio de projetos de restauração e reutilização de espaços esquecidos, o projeto do Parque da Residência comandado pelo então Secretário de Cultura Arq. Paulo Chaves – profissional e agente público responsável pela transformação da Capital, cujo legado é impactante até os dias de hoje – e com traçado paisagístico de Rosa Grena Kliass, é um emblema, junto com a Estação das Docas, de uma nova e melhor experiência metropolitana de se viver a partir de 1994.
Dentro de um novo otimismo nacional advindo da recém conquistada estabilidade inflacionária e de uma moeda forte, uma miríade de projetos urbanos e paisagísticos nasce neste país, inspirados por casos de sucessos nacionais – por exemplo Curitiba – ou sucessos internacionais como o de Barcelona pós-Jogos Olímpicos de 1992. Vale lembrar do programa de “barcelonização” do Rio de Janeiro, chamado de Rio-Cidade nos governos de César Maia e Luiz Paulo Conde. Assim, requalificação e aformoseamento das cidades estavam na agenda municipal brasileira naquele momento político.
Edificado na zona central de Belém e em um dos bairros mais charmosos da cidade, o Parque da Residência ocupa de maneira contemporânea aproximadamente 12.000 m² do terreno da antiga residência oficial dos governadores do Pará, formado por edificações existentes e um jardim voltado para duas importantes vias. Deste modo, o parque de bolso já nasce com atrativos existentes, dentre eles, arquitetura e história imponentes, identidade consolidada, cobertura vegetal madura, localização privilegiada, capacidade de atração comercial e vontade pública.
Com clara inspiração no exemplo nova-iorquino e do sucesso curitibano do Jardim Botânico e da antiga Rua 24 horas, o Parque da Residência é pensado como um centro de lazer, cultura, gastronomia, celebração e de reunião social, um espaço múltiplo, diverso, simpático e diplomático. E com muita sagacidade, ele é ocupado por edificações distintas em uso e em estilos arquitetônicos, sempre com um quê de identidade.
Por conseguinte, é nele onde encontramos a atual sede da Secult/PA, um gazebo/restaurante, um teatro junto a um espaço expositivo, um anfiteatro grego, um vagão de trem convertido em sorveteria, uma pérgula metálica – mantida pela Associação Paraense de Orquidófilos – e o Pavilhão Frederico Rhossard de estrutura metálica francesa, transformado em coreto. Nesta pluralidade de ambiências, a sensibilidade e harmonia do paisagismo de Rosa Grena Kliass se faz admirar, e isto é outra inteligência do traçado.
No desenho de Kliass é possível encontrar referências à cultura local através da paginação de pisos e interferências externas, como os morrotes, de inspiração uruguaia, para a criação de zonas de abrigo mais reservadas. Muito antes da aparição do conceito contemporâneo de cenarismo urbano descrito no livro de Jacqueline Osty – Cenografia dos prazeres urbanos – o qual foi o vencedor do Grande Prémio de Urbanismo na França em 2020. Kliass, então, desenha um esquema paisagístico que favorece a cenografia teatral da residência, porém colocando a experiência “verde” do ser humano em primeiro plano, sem cair em folclorismos rasos. Ao contrário, há elegantes abstrações e releituras de uma Amazônia urbana, secular e culta.
Outrossim, em um país continental como o Brasil, Belém é uma capital equatorial – onde o clima é quente e úmido – e isto foi considerado no projeto. Portanto, o parque é povoado por árvores frondosas, os bancos são revestidos de pastilhas cor de damasco, capazes de suportar as fortes intempéries, e as flores tropicais mais sensíveis estão protegidas do sol intenso por estruturas modulares.
Em continuidade, é com a utilização de um programa de (re)naturalização de espaços antes artificializados, da adição do elemento água, do ajuste das zonas de convivência social por meio de um mobiliário eficiente e de uma atenção aos detalhes que o Parque da Residência atinge o seu ideal de excelência e o seu sucesso de público.
Em visitas recentes, eu constatei que o parque continua a atrair o mesmo público de antes, ou seja, crianças, jovens, famílias e amantes do teatro, pois é nele onde está localizado um dos teatros experimentais mais atuantes da cidade, o Teatro Gasômetro cujo nome é reflexo da reconversão de uma estrutura de ferro inglesa, feita para abrigar uma usina energética, em espaço contemporâneo de expressão artística.
Esta atração acontece devido a fatores; programação cultural e comercial, fruição, uma vez que o parque serve como quebra de quadra, manutenção de uma ancoragem institucional – sede da Secretaria de Cultura local – e finalmente o atrativo gastronômico.
Finalmente, dentro do contexto local, o Parque da Residência é um exemplo de boa zeladoria e gestão. Ele é a casa de diversos equipamentos culturais e gastronômicos, além de abrigar a sede da pasta de Cultura, a qual usufrui de uma verba estadual para o seu custeio. Além disto, o aluguel dos espaços gastronômicos e culturais colabora para o orçamento do parque.
Em síntese, após quase trinta anos desde sua inauguração, o Parque da Residência viu nascer em Belém outras áreas verdes de diferentes escalas como os Parques do Utinga e da Cidade, todavia, nenhuma com a característica de um parque de bolso e, nesta classificação, ele continua ímpar. Para os seus próximos trinta anos, eu acredito que um projeto de atualização se faz necessário, uma vez que ele resgatará no logradouro o pensamento da época, ou seja, um espaço verde contemporâneo, respeitoso do desenho original, contudo presente no seu tempo. Era este o ideal de Paulo Chaves e Rosa Grena Kliass para um verdadeiro parque de bolso brasileiro, metropolitano e amazônico.
“Há bons exemplos de espaços públicos no Brasil e isto deve ser valorizado por todos”.
Murilo Vidal – Sócio-fundador e Diretor de Criação da Austin Urbanismo


Bibliografia:
HERVÉ, T.; MELLO, N. Atlas do Brasil: Disparidades e dinâmicas do território. 2.ed. São Paulo: EDUSP e Imprensa Oficial, 2008
GUILLERM, E. Une Cité-Jardin Moderne : La Butte-Rouge à Châtenay-Malabary. Marselha: Éditions Parenthèses, 2022
KLIASS, R. Rosa Kliass: desenhando paisagens, moldando uma profissão. São Paulo: SENAC, 2019
OSTY, J. Scénographie des plaisirs urbains. Marselha: Éditions Parenthèses, 2021



