Grupo de Trabalho de Urbanismo Expõe: Parque Linear Doca | Requalificação urbana e a memória da água

Parque Linear Doca

Requalificação urbana e a memória da água

O Parque Doca está localizado na cidade de Belém, em uma área baixa e alagável correspondente ao antigo Igarapé das Almas, um braço do rio que integrava a bacia hidrográfica do Reduto. Atualmente, o antigo igarapé encontra-se artificializado e canalizado no eixo central da Avenida Visconde de Sousa Franco, entre os bairros do Reduto e do Umarizal. Inserido em um contexto urbano marcado pela fragmentação da paisagem natural, o canal evidencia como os ecossistemas, fundamentais para o equilíbrio ecológico e físico do território, foram progressivamente interrompidos pela lógica de urbanização da cidade. Sua configuração anterior resultou de soluções urbanísticas voltadas predominantemente a questões funcionais e viárias, apagando importantes elementos estruturadores da paisagem e, consequentemente, sua memória, identidade e potencialidades ambientais.

Créditos da imagem: Natureza Urbana

Hoje, o entorno do canal, com aproximadamente 1,2 km de extensão, caracteriza-se pela diversidade de usos institucionais, comerciais e habitacionais ao longo da Avenida Visconde de Sousa Franco, mas também pela ausência de espaços públicos qualificados, pela predominância do automóvel, pela fragmentação urbana e pela escassez de áreas sombreadas. Nesse contexto, o Parque Linear Doca surge no âmbito da COP30 como uma proposta de reconciliação entre o meio urbano e o meio natural, por meio da criação de um parque linear contínuo que articula os diferentes usos do território e oferece espaços de lazer, esporte, convivência e contemplação. O projeto propõe o resgate da memória da água, de suas vivências e dos ecossistemas originais associados ao local, estruturando um corredor urbano verde multifuncional voltado à promoção de um desenvolvimento urbano ativo, sustentável e saudável.

Créditos da imagem: Natureza Urbana

A proposta busca criar espaços públicos de qualidade, valorizar o patrimônio construído existente e deixar um legado positivo para a paisagem urbana no período pós-COP30. Além disso, potencializa os sistemas de circulação e conexão pedonal, ciclável e ambiental, ao mesmo tempo em que promove o resgate da memória, a requalificação ecológica e a ampliação da biodiversidade. As estratégias incorporam dispositivos capazes de fortalecer a resiliência do corpo hídrico e dos ecossistemas associados, ampliando as funções ecológicas do canal e aproximando a população da água através de soluções de desenho urbano que estimulam novas formas de relação com a paisagem.

Créditos da imagem: Natureza Urbana
 
 

Segundo a arquiteta Manoela Machado, sócia do escritório Natureza Urbana, a estratégia do projeto foi estruturada a partir de um conjunto integrado de soluções ambientais e paisagísticas. “A proposta incorpora soluções baseadas na natureza para aprimorar a qualidade da água, mitigar a poluição difusa e reforçar mecanismos de microdrenagem, restabelecendo o desempenho ecológico do curso hídrico”, explica. Paralelamente, o projeto adota uma infraestrutura resiliente, preparada para enfrentar eventos de cheia por meio de readequações hidráulicas e de estruturas elevadas que garantem condições seguras de circulação e visitação ao longo de todo o ano. “Construímos elementos adequados para as inundações anuais, mas considerando a maior maré, que chega a 3,90 metros e ocorre a cada 18 anos”, detalha a arquiteta. O desenho urbano também amplia a permeabilidade do solo, favorecendo o conforto térmico, a drenagem sustentável e a regulação do microclima urbano, aspectos essenciais em uma cidade marcada por altas temperaturas e baixa presença de áreas verdes.

Créditos da imagem: Natureza Urbana
Foto: Manuel Sá

Como afirma Ailton Krenak: “Que esses rios, que são muito mais antigos do que nós, possam nos dar sabedoria e nos instruir sobre como melhorar a nossa existência sem continuar dançando a vida ao nosso redor. Os rios têm sabedoria, eles podem ensinar a gente. Vamos aprender com eles!”. Inspirado por essa reflexão, o projeto adota estratégias como a substituição do revestimento rígido por camadas vegetadas, ampliando a biodiversidade e a rugosidade do canal; a utilização de soluções baseadas na natureza como mecanismos de fitorremediação, melhoria da microdrenagem e redução da poluição difusa; a mitigação dos impactos das cheias por meio de melhorias hidráulicas e da elevação das infraestruturas de apoio; e a ampliação das áreas permeáveis, contribuindo para a drenagem e para o microclima local.

O Parque Linear Doca é composto por um programa diversificado de usos que dialoga com a vocação existente de seu entorno. Ao longo do eixo do parque distribuem-se equipamentos e espaços como mirantes, passarelas elevadas, quiosques de alimentação, parques infantis, parque canino, áreas sombreadas, ciclovia, jardins de estar e contemplação, áreas de jogos e espaços de convivência, configurando um novo sistema de espaços públicos voltado tanto para os moradores de Belém quanto para visitantes da cidade.

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